Anúncios

Nunca vimos alguém ser condenado como criminoso por ter mantido durante anos e anos uma outra pessoa nos cativeiros de seu egoísmo. Não é comum ver uma esposa, depois de longo tempo de agressões psicológicas, que a impediram de desenvolver suas potencialidades, pedir à Justiça que seu marido pague pelo mal cometido. Não é comum que um filho denuncie os pais por o terem forçado a abortar os próprios sonhos, subjugando-o a viver por eles a vida que eles gostariam de ter vivido. Não há registro de que alguém tenha pedido indenização, ainda que simbólica, pela vida que foi desperdiçada em torno de um amor que nunca foi amor. O motivo é simples. Esses crimes estão inconscientemente socializados. Nós os cometemos diariamente e nem sempre nos atentamos de que os realizamos. É como se já estivessem justificados por uma prática comum, irrefletida, da qual participamos como se isso não causasse prejuízo a nós e aos outros. É assim mesmo. A não reflexão sobre a atitude criminosa funciona como delicada base de verniz que aplicamos para nos proteger de nossa covardia. Ledo engano. O silêncio do crime não nos exime da sentença. Mais cedo ou mais tarde ela nos será entregue. A criminosos e vítimas. Chega-nos pelos braços do tempo, quando este, sem nenhuma piedade, deposita sobre nossa alma a desconcertante conclusão de que o vivido não valeu a pena. É a partir desse outro desassossego que começo. A humanidade se distancia assustadoramente de sua essência. Somos cada vez menos esclarecidos quando o assunto é humanidade. Conhecemos de cor o funcionamento de uma máquina, mas temos dificuldade de compreender uma lágrima humana. Estamos indispostos para discutir com profundidade os problemas que nos afetam. Estamos cada vez mais distantes da cultura que nos permite acesso ao profundo do mundo. A poética, linguagem por excelência que nos conduz ao coração das realidades, tem sido constantemente banida. Prevalecem as fórmulas chulas, rasas, pretensiosamente prontas, mágicas, engraçadas –reconheço –, mas incapazes de sugerirem avanço ao que é profundo. Com isso nos limitamos a tocar a primeira pele das questões. E só.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: