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Espiritualidade é um termo cheio de significados. Não só a palavra pode significar diferentes sentidos, dependendo de quem a usa, como também tem uma longa história que vai além do próprio momento de seu “surgimento”. As pessoas, em seu dia a dia, quando usam a palavra “espiritualidade” querem dizer algo como uma vida para além da vida meramente material, seja esse “para além” algo ligado a uma tradição religiosa específica, ou mesmo apartado de qualquer uma das tradições religiosas existentes. Para muitos, estar apartado de qualquer uma dessas tradições é indício de que sua espiritualidade seria mais “verdadeira” e menos contaminada pelas contradições concretas que todas as tradições religiosas carregam em sua história, muitas vezes, sombria. Essa tendência à separação entre religião e espiritualidade é um processo ligado à modernidade e teremos tempo de ver como isso aconteceu, seu significado e seus desdobramentos para a própria ideia de espiritualidade. Dizer, portanto, o que é espiritualidade é uma tarefa complexa.

O que é espiritualidade? O que seria essa “terra estrangeira” para qual nos dirigimos neste ensaio? Haveria uma espiritualidade “para” covardes? O que é espiritualidade? Do ponto de vista meramente histórico, a palavra, ou o conceito, nasce no âmbito do catolicismo francês em meio ao século XVII. Outro termo comum na época, muito próximo à ideia de espiritualidade, era “ciência dos santos”. Nesse universo, ambas significam uma vida próxima a Deus e os desdobramentos práticos dessa vida “acompanhada” por Deus. Espiritualidade aqui é um tipo de conhecimento prático (também teórico, mas o que a diferencia é a dimensão prática) que só se adquire com essa intimidade com Deus. Naquele momento, essa “intimidade” era ainda (porque mudará) bastante dependente da liturgia e da ritualística católicas, daí a “ciência dos santos” católicos. A espiritualidade nasce, em grande medida, institucional. Um dos eventos mais marcantes do processo de constituição da ideia de espiritualidade que temos hoje é, justamente, sua “desinstitucionalização”, como tudo aliás, a partir da radicalização da modernização burguesa em que vivemos nos últimos séculos. É este processo que nos levará à ideia de espiritualidade como commodity (produto à venda), como veremos ao longo da nossa caminhada. Assim sendo, espiritualidade nasce como uma vida prática e cotidiana “regada” a experiências místicas (contatos íntimos com Deus) mediadas pelos elementos institucionais como missa, oração, magistério, trabalhos físicos. Todavia, é evidente que esse tipo de experiência religiosa (e psicológica) é anterior à palavra espiritualidade, enquanto tal, começar a circular de forma mais presente no século XVII. Portanto, para tratarmos de espiritualidade, teremos que ser “historicamente incorretos”: Mas vale lembrar que pecadores sempre tiveram grandes doses de espiritualidade, muito mais que os bonzinhos.

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One Comment on “Espiritualidade

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