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Viver é viver no mundo. Por onde tenho andado, já me dei conta de que o mundo não sai da frente. Viver é interagir com ele. Podemos nos mover, podemos abrir portas e derrubar paredes. Podemos ir morar em outro país. Mas, ao descer do avião, uma constatação: o mundo continua ali, preparado para interagir conosco. Podemos nos mover no mundo o quanto quisermos, para todos os sentidos e direções, até mesmo acreditar que somos livres —ilusão do livre-arbítrio —, mas não se sai de si, não se sai do mundo. Podemos até fugir, mas nunca escapar. Ora, por isso o desespero não tem fronteiras. Só nascemos para sofrer e para morrer. Se houver reencarnação, só renascemos para sofrer e morrer novamente. Não há nada além da dor. E o prazer? É quando a dor diminui. Assim, só há prazer quando, por exemplo, diminuímos a dor da fome. Se não houvesse fome, não haveria prazer em comer. Só há prazer quando diminuímos a dor da sede. Se não houvesse sede, não haveria o prazer de beber. E o prazer do repouso depende do cansaço. Por isso, todo prazer depende da dor que circunstancialmente diminui. Como poderia haver uma felicidade eterna, permanente e estável se todo o prazer pressupõe a dor que ele apenas reduz? Nesse turbilhão de nossas forças vitais, nos relacionamos com o mundo pelo desejo. Mas, na lógica do desejo, sempre nos faltará algo. A saciedade apenas indica um novo desejo, uma nova falta. Por essas e outras, não há salvação, não há outro mundo. O mundo é este aqui, com seus desejos e suas dores. O mundo é só o mundo e nada mais. O céu é vazio, nele não há azul, nem deuses, nem anjos. A salvação é este vazio mesmo. A compreensão da ilusão. A aceitação do desespero.

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