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A partir dos anos 50, a escrita ganhou som, fúria e movimento nas mãos ligeiras de jovens escritores que decidiram encarar o conservadorismo moral vigente nos EUA. Instaurando uma nova maneira de enfrentar o mundo. Essa geração, que passaria a ser reconhecida como “beat”. Três escritores e três livros formam o panteão da geração. “Pé na Estrada” (“On The Road”), de Jack Kerouac, “Almoço Nu” (“Naked Lunch”), de William Burroughs e o poema “Uivo” (“Howl”), de Allen Ginsberg.

Todos três empenharam-se em forjar uma nova prosódia, capturando a sonoridade das ruas, das planícies e das estradas dos EUA. Dispostos a libertar a literatura norte-americana de determinadas amarras acadêmicas e de certo servilismo. Abolindo assim fórmulas europeias (ou europeizantes). Ao fazê-lo, introduziram som na prosa, antes e melhor do que qualquer outro romancista da época. O adjetivo Beat, que pode ser interpretado como “cansado”, ganhou então conotação sonora.
Jack Kerouac (1922-1969) escreveu sua obra-prima “On The Road”, livro que seria consagrado mais tarde como a “bíblia hippie”, em apenas três semanas. Assim a geração beat é considerada o embrião do movimento hippie. Escrito em abril de 1951, foi rejeitado por muitas editoras. Sendo lançado somente em 1957. Após penosa revisão ortográfica e exclusão de 150 páginas. O fôlego narrativo alucinante do escritor impressionou bastante seus editores. Tendo sido publicado após inúmeras alterações por eles exigidas. Agradando mais leitores que a crítica. Jack usava uma máquina de escrever e um rolo de papel de telex para não ter de trocar de folha a todo o momento. Redigia de forma ininterrupta, invariavelmente sem a preocupação de cadenciar o fluxo de palavras com pontuação e parágrafos. Assim criou um novo tipo de prosa, que funciona como trilha sonora interna ao livro, que vai se desprendendo das palavras, das frases, dos blocos de texto. Essa escrita que tem o ritmo das ruas une a realidade ao sonho, transformando o que era uma viagem em uma busca espiritual.

Na década de 90, o diretor e produtor Francis Ford Coppola ensaiou um projeto para um filme, que acabou se concretizando em 2012, levado às telas por Walter Salles. Mais de meio século depois do lançamento do livro. Os leitores poderão conhecer a versão para o cinema do grito libertário de Jack Kerouac.

William Seward Burroughs (1912-1997) estudou Artes em Harvard. Mergulhou fundo nas experiências com narcóticos e tirou de lá uma percepção inusitada do mundo; com a qual abasteceu suas histórias sobre doentes terminais, homossexuais, traficantes e criaturas asquerosas. Pagou caro por isso. Teve passagem por clínicas de reabilitação e sobreviveu sob severos tratamentos. Burroughs aparece na capa do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos The Beatles. Burroughs teria gravado as suas fitas experimentais “Hello, Yes, hello” no apartamento em que o ex-beatle John Lennon morou com Yoko Ono, no número 34 da Montagu Place, em Londres.

Participou de inúmeros álbuns, recitando poemas ou outros textos, incluindo trabalhos de Tom Waits, Frank Zappa, John Cage, Philip Glass, Laurie Anderson, The Doors e Kurt Cobain e The Disposable Heroes of Hiphoprisy. Ele também aparece no clipe “Just One Fix”, do grupo Ministry. Em 1981, gravou o álbum de spoken word intitulado you’re the Guy I Want To Share My Money With, com Laurie Anderson e John Giorno.

Em 1951, um acontecimento trágico envolvendo sua segunda esposa afetou-o diretamente e despertou-lhe o desejo de escrever. Durante uma estadia no México, Bill pediu para que Joan Vollmer, sua mulher, equilibrar um copo sobre a cabeça. Depois pegou um revólver e ajustou a mira. O disparo que seria para estilhaçar o copo acertou em cheio o rosto de Joan.
“Eu sou forçado à terrível conclusão que eu nunca teria me tornado um escritor, a não ser pela morte de Joan, e nunca teria uma compreensão da extensão em que este evento tem motivado e formulado a minha escrita. Eu vivo com a ameaça constante de posse, e uma constante necessidade de escapar da posse, do controle. Assim, a morte de Joan trouxe-me em contato com o invasor, a Alma Suja, e manobrou-me para uma longa luta na vida, em que não tive escolha a não ser escrever a minha saída dela.”
A sua obra mais conhecida é Naked Lunch, Almoço Nu no Brasil, e Refeição Nua em Portugal, seguida de Junkie. Grande parte de sua obra, de atmosfera fantástica e grotesca, tem caráter autobiográfico. Apesar de fazer parte da chamada geração beat, seus livros têm pouco em comum com o restante desses autores, já que a linguagem utilizada provém de fluxos de consciência durante o uso de alucinógenos. Essa grandiosa fantasia burroughsiana, provêm de sementes de outro livro. Cartas do Yage. Onde Burroughs decidiu vir pra Colômbia em busca do yage. Trepadeira alucinógena. Ou aiuaska, yagé. Bannisteriopis Caapi. Usada no culto do Santo dime. Sempre mantendo contato com Ginsberg por cartas, como essa, enviada de Lima, em 10.07.53:
“Ontem à noite tomei o resto da mistura do yage. Eis o que aconteceu: o yage é uma viagem espaço tempo. O quarto parece sacudir e vibrar. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, índios, raças por nascer e combinações ainda não descobertas transpassam meu corpo. Migrações, incríveis viagens por desertos, matas e montanhas, num catamarã através do pacífico até a ilha de páscoa. Minaretes, palmeiras, picos rochosos, selvas tropicais, um lento rio onde pulam peixes defeituosos. Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo”.

Muitos remanescentes hippies se auto-intitulam beatniks e um dos principais porta-vozes pop do movimento hippie, John Lennon, se inspirou na palavra beat para batizar o seu grupo musical, The Beatles. Na verdade, a “Beat generation”, tal como os Beatles, o movimento hippie e, antes de todos estes, o existencialismo, fizeram parte de um movimento maior, hoje chamado de “contracultura”.

Allen Ginsberg (1926-1997) conheceu Kerouac na universidade de Columbia. Ficou muito famoso por suas poesias. Sendo seu livro mais conhecido Howl, de 1956. Foi o livro de poesia mais vendido na história dos Estados Unidos. Um milhão de exemplares em pouco tempo. Ginsberg tinha muitos fãs, entre eles Jim Morrison, do grupo The Doors. Morrison era tão viciado nas poesias e obras dele que dizia escrever suas músicas após ter lido algum de seus poemas. Sabe-se que Ginsberg e a banda The Clash eram fãs recíprocos. O poeta fez uma participação especial na música Ghetto Defendant, cantando ao lado de Joe Strummer trechos de um de seus poemas. Ian Astbury, líder da banda The Cult e amigo pessoal dos músicos dos The Clash, recitava Howl (Uivo) no início dos shows.
Os escritores Beat davam ênfase a um engajamento visceral em experiências com as palavras combinadas com a busca a um entendimento espiritual mais profundo. Acreditaram que poderiam alcançar um “grau maior de elevação da consciência” através do desregramento dos sentidos, e por isso não dispensavam o uso das drogas, em seus primórdios.
Seria Tom Waits um beatnik de voz rouca?

André Nallin Salvador 29/08/2016

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2 Comments on “Sexo, drogas e jazz

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