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“Morro quando querer, na hora que bem me entender. Pode guardar seu caixão, pra melhor ocasião. Não vou deixar me perder, em cova rasa no chão”
Jorge Amado

A morte é um produto da história. Ao mesmo tempo, a história, tanto quanto produto da vida dos homens em sociedade, é resultado da morte deles. As sociedades se reproduzem porque seus membros morrem. Se a sociedade é um sistema de comunicação, o desaparecimento de um componente de sua organização põe em crise todo sistema. A morte de um indivíduo não é um evento isolado, mas representa tantos eventos quantas relações o indivíduo morto mantivesse. Portanto, não basta a sociedade produzir explicações que afastam a morte: é preciso ainda que ela tome decisões efetivas para assegurar sua continuidade contra e através do desaparecimento de seus membros.
Banida, produzida, administrada, a morte está em toda parte, e esta presença é o grande paradoxo de uma sociedade que pretende divinizar a vida. Nossa civilização não se delimita a desenhar o fantasma da morte coletiva em seus horizontes próprios. Ela leva a realidade dessa morte às outras sociedades: África, América, Ásia foram ou estão em vias de ser devoradas por esse espectro.
As noções mais importantes da vida escapam inteiramente à ciência: beleza, felicidade, prazer, dor…A propósito delas, as teorias científicas nada podem falar. O que nos autoriza a pergunta: é possível falar cientificamente sobre a morte?
Falar cientificamente sobre a morte é considera-la como objeto e, logo, pô-la a distância. Mas a morte não é objeto, não se confunde com sua misse-en-scène segundo as diferentes culturas. Não pode ser apreendida. Diante disso, será que se pode considerar a morte como objeto de ciência e submetê-la à regra de ouro de nosso catecismo metodológico, considerando-a como coisa? Ignoramos tudo sobre a vida; que podemos saber então sobre a morte? Não obstante, a morte se transformou em objeto de saber e até mesmo em fenômeno de moda intelectual. Em tudo isso, é claro, existe uma tentativa de fechar a angústia de morte dentro de um discurso e de localizar o pensamento sobre a morte em um lugar seguro dentro da sociedade (e fora de nós). A sociologia da morte na verdade é a sociologia dos vivos, não há outra maneira. Mas insisto em fazer uma reflexão sobre a morte, não sobre as “repercussões sociais” da morte. Entende? Ela não se deixa apreender, ela escapa. Quando a consciência a aprende, é porque a morte não existe, quando ela existe, a consciência não pode apreende-la. Minha intenção é refletir essas contradições, e evidentemente, não vou resolver nenhuma delas.
Na escala das existências individuais, a morte é a única certeza absoluta do domínio da vida. Isso nos faz refletir. O suicida domina sua vida quando acaba com ela. Loucura dizer que o suicida liberta-se ao se matar? O peso do acontecimento não pode ser negado, mesmo que se lhe negue o valor do aniquilamento. E a coisa vai longe: através de que meios, poderia um ser pensante pensar a condição de não-pensante? A que tipo de lógica recorreria um existente para pensar na não-existência? Se o próprio ato de pensar é a mais palmar rejeição do objeto pensado? Como poderia um “alguém” pensar no aniquilamento, no nada, se o conceito de “nada” é já, em si mesmo, alguma coisa?
Morrer não é tornar-se outro, mas vir a ser nada ou, o que quer o mesmo, transformar-se em absolutamente outro, porque, se o relativamente outro é ainda uma maneira de ser, o absolutamente outro que é o contraditório do mesmo, se comporta em relação a este como o não ser em relação ao ser. Ora, como poderia um sujeito imaginar-se inteiramente outro, absolutamente outro, sem que o resultado dessa especulação fosse, para o sujeito, permanecer radicalmente ele mesmo?
O animal tem, é verdade, uma certa percepção da morte, ele a sente como um perigo que o ameaça, e reconhece seus predadores, reagindo por extinto de conservação da espécie; ele tem alguma sensibilidade à aproximação de seu fim, o que lhe permite encontrar um lugar seguro pra se esconder e morrer. Mas reconheceria a morte a mãe chipanzé, que passeia com o cadáver decomposto de seu filhote? Poderia o animal transmitir a seus próximos sua experiência de morte? O homem é o único a ter consciência da morte, é o único a saber que sua estada na terra é precária e efêmera. O animal, enfim, não se sabe mortal. O que pode ocorrer é que animais domesticados, como alguns cães, recusam-se a abandonar o túmulo de seus donos, demonstrando desse modo algum tipo de consciência de morte. Exceções. Ocorrem devido a domesticação.
A consciência da própria morte é sem dúvida umas das conquistas mais constitutivas do homem. Não se trata de instinto, mas já da aurora do pensamento humano, que traduz como espécie de revolta contra a morte.
O corpo morto não pode ser considerado como um cadáver qualquer. A sepultura traduz incontestavelmente um progresso do conhecimento objetivo, nada tem a ver com
razões supostas intuitivas ou refletidas, de caráter higiênico ou utilitário. É uma obrigação moral e da necessidade de exprimir alguma coisa. Exemplo disso são comunidades que enterram seus membros antes mesmo que morram, nem poderíamos explicar porque certos povos convivem longamente com o processo de putrefação, como em Zanaga, ainda hoje, os cadáveres são conservados até seis meses, improvisando-se sob o leito mortuário um canal que recolhe os líquidos cadavéricos. Você acha isso errado? Então você acha mais certo comprar um Nike, vestir uma calça jeans e uma camiseta? Você pode se vestir assim, mas não é você que escolhe seu Nike airmax. Ele é escolhido pra você pelo fantasma da globalização. Você acha errado, se há séculos, se o primeiro filho de um casal nascer mulher ser arremessado de um penhasco? Vai lá e manda ele por um tênis da mizuno.
Cousa digna de nota são os funerais e ritos da morte, eles amenizam o fantasma do aniquilamento. Eles são uma crise, um drama e uma solução: em geral, uma transição do desespero e angústia ao consolo e esperança.
Ao mesmo tempo, a noção de morte “natural” é coerente com o espirito das classes que então emergem: ela é um protesto contra a brevidade da vida, porque, se a morte não deriva mais do arbítrio das forças do além, mas de causas das quais os homens estão submetidos enquanto partes da natureza, ela deriva, então, de causas que os homens podem, senão abolir, ao menos controlar (eliminando a morte violenta, a morte precoce e a morte casual). Assim a morte “natural” se transforma então em uma aspiração, e logo um direito táctico das classes dominantes e emergentes, que passam a cultivar o ideal da “morte natural”, isto é, acompanhada medicamente, sem sofrimento e que ocorre em idade avançada.
Antes era vontade de Deus e ponto final. Protestar contra a decisão divina, um sacrilégio. Agora a morte se divide em duas: de um lado uma morte considerada normal, “natural”, porque afinal de contas (por enquanto) tudo deve determinar; de outro lado, uma morte outra: anormal, indigna, inaceitável. Que se pode atribuir a uma causa externa não natural (isto é: não controlável).
A medicalização da morte é também recente. O terapeuta tinha obrigatoriamente duas obrigações fundamentais: por um lado ele podia ajudar seu cliente a se curar; por outro, ele podia ajudar seu doente a morrer. Dando-lhe uma boa morte. Tornando-a mais suave, ajudando o moribundo a suportá-la. Exemplo disso é a medicina da dor. Sou totalmente contra a distanasia. Muitas vezes, um paciente em CTI, tem seu prognóstico reservado; e se pararmos pra pensar, qualquer medida visando cura levará a distanasia. Fornecer oxigênio em níveis maiores que em concentração atmosférica, considero distanasia. Pois não trará conforto imediato, mas fará com que ele morra mais rápido. Aliviando, a médio prazo, seu sofrimento. Para um paciente com enfisema pulmonar avançado, eu prefiro que sofra algumas horas de gritante falta de ar, do que seja ligado em um aparelho e sobreviva mais três meses. Culminando em uma morte indigna, sem conseguir se despedir de seus entes queridos, criando escaras de pressão, totalmente sem dignidade. A morte não é fácil, e Deus permite uma morte súbita apenas a algumas poucas pessoas, normalmente a morte é um processo lento e doloroso. Como o fumante, já presenciei inúmeras mortes de tabagistas terminais, pois o tabagismo é considerado doença. A morte do fumante é muito triste, dolorosa, agoniante. Talvez a morte mais feia que já tenha visto. Isso é muito particular de médico pra médico. Pode-se tentar medidas pra que se alivie um pouco, e ele morra após sofrer dias ou semanas. Ou liga-lo em um aparelho, onde sobreviverá meses, com qualidade de vida pior do que um vira-latas sarnento. Essa decisão não cabe somente ao médico, deve-se ser tomada junto com a família, através do consentimento esclarecido. Mas o que normalmente ocorre é egoísmo da família, querendo segurar o doente nesse plano por mais tempo possível. Interpreto isso como distanasia (morte difícil). Ocorrem invasão do corpo por tubos em todos orifícios possíveis do corpo, quando os orifícios naturais já estão repletos de tubos, cria-se orifícios novos, como a traqueostomia.
Curando ou ajudando o doente a morrer, o trabalho do médico jamais assumiria o caráter de uma luta contra Deus. Deus é Deus meu chapa. Quando Ele quer, está feito. Blasfêmia é dizer que um homem, que é incapaz de atrair a atenção de Deus, pois nossas obras são como lençóis pútridos diante Dele, adiar os prazeres do Paraíso. Interessante citar o conselho de Latrão (1215), onde os médicos estavam formalmente impedidos de exercer o papel de terapeutas diante dos moribundos, sobrepondo-se a este o de sacerdote.
O pobre médico leigo acha que pode se apropriar da morte, mas não tem intensa disputa de poder contra o Pai. Os concílios de Ravena (1311) e Paris (1429) proibiam que os médicos se apresentassem no quarto de um doente se o confessor aí não tivesse comparecido anteriormente. Outra cousa triste passa a ocorrer no final do século XVIII: o interesse do médico se desloca do doente pra doença. A morte antiga, diante da nova medicina, começa a deixar de existir: os desígnios de Deus, a força vital, são progressivamente substituídos pelas “doenças mortais”, por uma multiplicidade de causas específicas que se transformam nos novos responsáveis pelos falecimentos.
Surge então a morte burguesa. Outra merda. Ser humano é ser humano. A medicalização da morte e conceito de morte “natural” estão estreitamente associados à emergência ao poder de uma nova classe. Não foram duas nem três vezes que recebi ordem de dar alta de um paciente com poder aquisitivo menor de uma unidade de terapia intensiva, as vezes com mais chance de sobrevida, para que um com maior poder aquisitivo ocupasse seu leito. A justificativa: “um doente conveniado não pode morrer num quarto simples”. O homem rico que se recusa a morrer, e esse é um tipo de prestação muito bem retribuído. Nesse contexto, é compreensível que a morte tenha se tornado uma questão política. E que o poder passe a se interessar em se apropriar da doença e do tratamento: aí está a origem próxima da morte contemporânea, sob tratamento hospitalar intensivo. Em contraste, no outro extremo da escala social, a morte continua soberana: para os pobres, nada de tratamento médico, ou quase nada. Por isso, começam a descobrir na morte uma fonte de reivindicações. Contra o não tratamento de suas afecções, contra sua condenação de morrer de morte “não natural”.
Lucas, capítulo doze, versículos do 13 ao 21:
“Disse-lhe então alguém do meio do povo: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança. Jesus respondeu-lhe: Meu amigo, quem me constituiu juiz ou arbitro entra vós? E disse então ao povo: Guardai-vos escrupulosamente de toda a avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas. E propôs-lhe essa parábola: Havia um homem rico cujos campos produziam muito. E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita. Disse ele então: Farei então o seguinte, derrubarei os meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi a minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósitos pra muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Deus, porém, lhe disse: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas que ajuntaste, de quem serão? Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.”

André Nallin Salvador

20/01/19

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2 Comments on “CONSIDERACOES SOBRE A MORTE

  1. Quanto talento. Fluidez narrativa, conteúdo homogêneo. Muito bom, colega (colega escriba, não sou médico!) – estou pelo Instagram, caso estejas por lá, adorarei aproximar-me intelectualmente. Já te tenho uma amizade platônica! Risos

  2. Pingback: CONSIDERACOES SOBRE A MORTE – Erudiçãoinformativa

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