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A solteirice é um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontra num zumbido vibrante e sem som. Como se entidades larvais aguardassem algo vivo, no morto.

Quando bate a solteirice, é como cheirar éter, ou quando se está muito bêbado. Deita-se e a cama gira. Levanta-se, corre pra porta, ombro no batente, sente-se o choque, mas não a dor. Repete-se sem parar: tudo o que quero é sair daqui. E a bobeira hebrefrênica de repetições incontroláveis e sem sentido. Bobeiras mecânicas tomam conta da gente. Ninguém excluído. Grátis. Pra quem paga com dor, grátis.

Estou morrendo através da tontura do uísque, transfiro as comissões pra onde o toldo se agita, lampejo em meus olhos, sem voz e o fim da garrafa.

Eeeeeeeeeee, solteirice. Chuva morna no telhado novo de ferro, sob o ventilador de teto. Ventilador sopra a fumaça, vodka e a fina camada de suor entre camisa, película. O cheiro é de vozes afogadas e do fim da linha. É como sonhar com um rio represado, com águas paradas, porém ariscas. Onde saltitam peixes defeituosos. Ora roxos, ora com oito barbatanas.

Ah, solteirice: filme em branco e preto, lagunas, lacunas negras. Além de pessoas esperando um lugar esquecido. Espero que a solteirice seja varrida pelo vento podre do ventilador de teto, vento onde o toldo se agita. Quem espera tem esperança, mas esse vento podre; pela milésima vez soa o sino, e eu ouço a solteirice novamente. E o toldo se agita.

Busquei oração. Ajudou-me muito. Posso te contar? Aliás, já foi contar uma estória pra alguém e esse alguém; mesmo que por educação, caridade ou pra próxima estação chegar mais rápido, te fez um arregalar de olhos? Tipo: não me diga! Espero que você, nobre leitor, de um sinal de que posso continuar meu discurso…

A velhice é uma ideia recente, ideia juvenil, não juvenil de passagem, mas perpetuamente juvenil.

Bom, fui à igreja de domingo aqui perto, na Arnaldo. Como sempre disse meu pai: “André, sempre reze. Não importa pra quem, mas rezar é essencial”. Vamos lá. Cheguei na hora. Uma mistura de perfumes que mais parecia loja de perfumes. Mas todos unidos por uma anistia FDS-semanal. Pensei:

Sabe-se que parte da população está fora daqui, quando entrei na igreja. Metades senhoras, de perfume forte, de costume. Não esqueço o escândalo sem tumulto produzido pela murmuração das senhoras de perfume forte. Mas o costume venceu a repugnância e os perfumes vãos à missa e ao sermão. Desacreditado, deixei-me embalar pelos perfumes que me levaram de leste a oeste, tornado à missa de domingo. Então Jesus apareceu-me antes de morto, antes de ressuscitado. Eu estava sonhando, ainda respirando os perfumes, cheguei à conclusão que o aroma é irmão da respiração. Concordam?

Com a respiração o perfume penetra impossível escapar-lhe caso queira viver. Imagina: podem-se tapar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza. Tapar os ouvidos diante da melodia ou palavras sedutoras, mas não se pode escapar do aroma das velhas de perfumes que vão à missa.

E o sermão continuava. E assim, diante de tamanho dilúvio; fiz como Noé, protagonista do sermão. Abri a janela e soltei um corvo. Não tornando, inferi que cataratas do céu e fontes do abismo ainda escancaradas estavam. Foi quando dei razão à alocução do galo, que estava na arca. Após bater as asas e cantar três vezes disse:

-Da minha parte, não é a chuva que me aborrece. Desde inicio do dilúvio, o que me aborrece foi vossa ideia de trazer sete casais de cada vivente, de modo que somos aqui sete galos e sete galinhas. Não brigo com outros galos nem eles comigo, porque estamos em tréguas, não por falta de casus belli. Há aqui seis galos demais. Se os mandássemos procurar o corvo?

O gato dizia que a história do rato era apenas uma longa série de violências contra o gato. O rato explicava que, se perseguia o gato, é porque o queijo o perseguia a ele.

Cousa digna da atenção é que a lagartixa via no crocodilo uma formidável lagartixa, e o crocodilo achava na lagartixa um crocolido mimoso; ambos de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem gênio (versão da lagartixa) e um presumido sem graça (versão crocodilo).

A semana foi lenta, não comprida. Não sei se entendem a diferença. E não nego que me sinto como um poeta decadente, que escuta trompete com surdina, escreve, bebe, se mutila. Punk? Não. Beatnick. De voz rouca. E então vejo que precedo a geração rockabilly, precedo. E aí entendo a rotura romancista norte- americana e volto à década de 50. Burrougs ficaria orgulhoso. Não existe visão tão insensata. Adoro.

Jack Kerouac escreveu sua obra-prima “On The Road”, livro que seria consagrado mais tarde como a “bíblia hippie”, em apenas três semanas. O fôlego narrativo alucinante do escritor impressionou bastante seus editores. Jack usava uma máquina de escrever e um rolo de papel de telex para não ter de trocar de folha a todo o momento. Redigia de forma ininterrupta, invariavelmente sem a preocupação de cadenciar o fluxo de palavras com pontuação e parágrafos.

Sinto-me assim. Vomitando palavras pra vocês. Sem digestão. Como oportunidade perdida, como esperança. Uma chance. E a esperança morrendo. A solteirice é como um grito em que o único que pode ouvi-lo já está longe demais. Cedo demais, tarde demais.

Quarteto, quinteto, big bands… Nada me agrada. Soh o bom e velho trompete com surdina. É como falar com Deus, embora a trompa seja mais angelical. E olha que já ouvi as trombetas de Isaias.

Demais.

E termino: estou sonhando? Seria aquela ultima hora da madrugada, que é sempre a mais escura; antes do amanhecer?

E a solteirice é onde me encontro. Falaram-me que a liberdade é um sonho. Não! Assim como o luxurioso padece pela luxuria. O rico padece pelo dinheiro, o serviçal padece pela serventia. Quem goza de solteirice padece pela liberdade.

E então toco meu violão. Será que ele andou bebendo? Deve ser: My acoustic guitar have being drinking.

E meu violão, que bebeu todas: Canta uma canção: God is away, fora a negócios…

André Salvador

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