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Era um celeiro. Improvisado para bar. O fog dos charutos não negava. Bancos de madeira. Aliás, o que mais continha era madeira. Tabaco cru, mas em chamas.
Abarrotado a ponto de cotovelo bater com cotovelo. Pessoal: metade de chapéu até altura dos olhos. E pessoal muito bonito. Milagre isso. Pois, sendo uma festa negra, e sem boas condições financeiras, faziam o que sabem fazer: maravilhas com o pouco que a sociedade sempre lhes proporcionou: ternos muito bem cortados. Pois a deselegância moral estava distante daquele baile. Além da madeira, uísque ainda sem curtir, translúcido. E a maior parte dos metais nos instrumentos. Amigo leitor, espero que dê-me um arregalar de olhos para que possa continuar meu discurso. Deu ? Obrigado.
Ainda não falamos em música.
Mas, sendo um humilde texto voltado pra música, veja a importância dessa música como espetáculo visual. Pra completar. No fundo, os músicos num pequeno tablado no fundo, servindo de palco.

Os rapazes tocando jazz acima das cabeças da plateia, uma loucura. Uma loucura. Sessenta pessoas no ambiente. O trompetista, fazia questão de imitar o barulho de um trem fumegando. Porque esse espetáculo, era de bom humor. O maravilhoso saxofonista soprava até ao êxtase, era um improviso plenamente soberbo com riffs no sax em crescendos e diminuendos que iam desde um simples “ii-yah!” até um louco “ii-di-lli-yah!. O cara do sax flutuava com furor, acompanhado pelo rolar impetuoso da bateria toda queimada por pequenas baganas fumegantes. Não era tocada. Era martelada com fervor por um negro brutal com pescoço que mais parecia de um touro, o baterista estava pouco se lixando pro mundo exterior, o que ele queria era surrar ininterruptamente seus tambores arruinados.
Uma puta duma zona, uma bagunça. Alvoroço causado pela música, confusão sonora, a cascata de notas. Mas o saxofonista dominava a situação, e todos viam que ele a dominava. Inclusive imploravam, com gritos e olhares desvairados, para que o saxofonista mantivesse o mesmo ritmo. O saxofonista se contorcia, ora se inclinava até os joelhos, e voltava a erguer-se com o sax. Esses movimentos eram combinados com o lamento agudo que flutuava acima do furor incontido da plateia. Se levarmos em consideração que o teatro é definido como uma cerimônia, dividida em três aspectos básicos: a caracterização: a solenidade do lugar, garantindo a credibilidade do evento. A separação espacial entre atores e público, tornando sagrado o ambiente dos autores. E a particularidade da língua falada, e, no jazz, o ritmo tem muito mais importância que a poesia. Jazz é um espetáculo.

André Salvador 08/05/19

*PS. Ao amigo Marcelo reginato

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